Vi carroças, vi animais, vi reis e rainhas... Mas eu sou só uma pedra de calçada.
Todos os dias, o treta-neto de quem me implantou aqui pisa-me sem saber que faço parte do seu passado. Ele desconhece o busto do senhor que me deu forma e me encaixou na perfeição junto das minhas irmãs. Connosco ele fez arte com todo o carinho e emoção... Tenho pena que o tenha visto morrer. Pois caiu moribundo na quinta pedra a baixo de mim, não sei o que ele tinha, só sei que toda a calçada ficou vermelha pelo sangue jorrado. O seu corpo permaneceu naquele local quase até apodrecer. E nós pedras ficamos manchadas de sangue até ao inferno seguinte, até a chuva roubar de nós o que tínhamos de mais precioso, o sangue do nosso criador, o sangue daquele artista!

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