Quando era pequenina costumava-me sentar naquele muro branco, mesmo por
baixo de uma grande macieira.
Todos os verões sentava-me lá e comia maças quando me apetecia, brincava
com gatos sempre que eles queriam e via os carros a passarem.
Os anos forma passando e os verões também... os meus calções azuis com
uma estrela laranja e a t-shirt com a menina loura com um vestido cor-de-rosa,
deixaram-me de servir.
Nessas roupas ficaram marcas das nódoas da fruta que comia e os meus
anos de ouro.
Não me importei, perdi os calções ganhei uma bicicleta.
Com a bicicleta percorria roda a
minha terra, com uma grande amiga. Com os meus calções vermelhos e o meu top
verde que dizia “I love you”, apesar de eu não saber o significado daquelas
palavras quando criança.
Acordava pela manhã e subia para cima da minha bicicleta, só descia dela
quando a noite já era serrada e não via nada.
Passei verões na minha bicicleta, não voltei a olhar para a velha
macieira que se erguia bem mais alto do que o meu metro e quarenta, dava maçãs
mais gostosas do que algum dia poderia voltar a provar.
Os verões foram passando e com eles perdi essa amiga, não em importei,
torquei por outras amigas. Mas havia um problema, não podiam andar de bicicleta
comigo!
Não me importei, coloquei a bicicleta na garagem e troquei pelos livros.
Agora escrevo todas as loucuras da menina de cabelo preto, que se sentava
no muro caiado mesmo por baixo da macieira, têm.
Sempre pensei que não sofria de nostalgia porque sempre tinha
aproveitado a minha vida ao máximo, mas descobri que estava enganada, só trás
mais saudades fazermos tudo o que queríamos quando éramos crianças e agora não
podemos.

