
Algumas vezes tiveste à distância de um beijo que nunca mais
chegava, outras à distância da vontade de nos vermos… Agora a distância é muito
superior à que alguma vez foi! Dizem que tenho de ser forte, de enfrentar a
maré sozinha, que quando a tormenta passar, o sol voltará a bilhar. E se eu me
perder no mar? E se eu não conseguir enfrentar a tempestade? E se a minha vida
tiver menos dias do que os dedos das minhas mãos? Para que é que me devo dar ao
trabalho de tentar ultrapassar a intempérie? Porque é que não posso
simplesmente continuar o meu rumo à deriva? Porque o barco se vai virar, é por
isso? O barco já se virou há léguas atrás! Agora só tenho um remo ao qual me
agarro para continuar a flutuar mas algo dentro de mim não se importa nada que
qualquer coisa faça esse remo deslizar por entre os meus dedos… Não me importo
nada de ir conhecer o fundo do mar, não me importo de saber que quando chegar a
esse fundo já só sobrará pequenos pedaços de mim. Prefiro ser devorada pelos tubarões
do que deixar que o meu interior me engula como um enorme predador…
Eu sei o que vão dizer, que já passaram por momentos piores
e que o sol até já começa a espreitar por entre as nuvens, mas no meu inteiro está
desabitado… Por isso o melhor será entregar-me à tempestade e deixar nela as
culpas de eu desaparecer deste mundo.
Remo, segue em direção à costa enquanto ainda te consigo
ver, diz há minha família que o mar é mau, que me consumiu, não digas que fui
eu que te larguei para ficar aqui…



